
M.Moniz
Atrás do centro comercial, um dos muito velhos nunca sintoniza completamente o rádio que está sempre a ouvir. Quando fala, também não.




Às vezes vêm-nos sonhos estranhos, impossíveis, nada naturais; ao acordarmos lembramo-nos deles com nitidez e admiramos este facto estranho: lembramo-nos, antes do mais, de que o juízo sempre esteve connosco enquanto sonhávamos; lembramo-nos, até, que agíamos de modo extremamente manhoso e lógico durante aquele longo, muito longo tempo em que estivemos rodeados de assassinos, assassinos que eram astutos connosco, que escondiam as suas intenções, que nos tratavam amigavelmente, quando já tinham as armas preparadas e esperavam apenas o sinal; lembramo-nos com que esperteza conseguíamos, finalmente, enganá-los, esconder-nos deles; depois percebíamos que eles conheciam de cor e salteado todas as nossas artimanhas e apenas faziam de conta que não conheciam o nosso esconderijo; mas voltávamos a enganá-los, lembramo-nos disso tudo nitidamente. Mas porque razão, ao mesmo tempo, a nossa mente se conformava a tantos absurdos e impossibilidades que enchiam o nosso sonho? Um dos assassinos, aos nossos olhos, transformava-se em mulher, e depois num anão, pequeno, astuto, asqueroso - e aceitávamos tudo isso de imediato como facto consumado, quase sem perplexidade, e precisamente no momento em que a nossa mente, por outro lado, estava extremamente tensa, manifestando força extraordinária, habilidade, perspicácia, lógica? Por que razão, ao acordarmos e ao entrarmos por completo no mundo real, sentimos quase sempre , e às vezes com a força da impressão indelével, que deixámos no sonho alguma coisa por desvendar? Rimo-nos do absurdo do nosso sonho e sentimos, ao mesmo tempo, que no emaranhado de absurdos do sonho existe uma ideia, uma ideia já real, uma coisa que faz parte da nossa vida real, uma coisa que existe e sempre existiu no nosso coração; parece que o nosso sonho nos disse alguma coisa nova, profética, ansiada por nós; a nossa impressão é forte, é feliz ou dolorosa, mas em que consiste e o que nos foi de facto dito - isso não somos capazes de compreender nem recordar.